26 de janeiro de 2009

os 3+1

Já toda a gente ouviu falar nos três R.




Pois então, fiquem a saber que agora são QUATRO. (Actualizem-se, pah – o 4º R é de REPENSAR. Aliás, é o 4º mas é o primeiro. É o que deve ser feito antes de todos os outros.)




A teoria dos três… perdão, dos quatro R fala-nos sobre o meio ambiente, mas podia perfeitamente estar a descrever muitas das pessoas que conheço e das atitudes que têm perante os sentimentos. Duvidam?







REPENSAR – ah, esta sou eu. Eu sou do género repensador. Penso, repenso, moo1.

Eu sou do tipo de pessoa que pensa demasiado nas coisas. Tanto que até assusta. Tanto que tira algum significado a algumas coisas e cria novos significados noutras.




Esta é a pré-acção: primeiro pensar sobre as existências, o dever e haver, e sobre a pegada sentimental que deixamos no(s) planeta(s).




Pensar sobre como podemos ser mais eficientes, coerentes, assertivos.




Sentir mais. Sentir melhor. Sentir bem. Sentir bom.







(E agora os três R…)




REDUZIR – reduzir é o que faz quem, uma vez amachucado (tipo folha de papel, em formato bolinha) nunca mais volta a alisar. Esta pessoa impõe um limite de emissão de sentimentos para a atmosfera. E cumpre criteriosamente, sem espaço para o fortuito. Aplica o protocolo de Quioto ao coração e à cabeça e faz questão de pagar multas e fustigar-se quando (muito raramente) ultrapassa a sua quota. Sim, estou a lembrar-me de alguém em concreto.





REUTILIZAR – os reutilizadores são aqueles que não vêem os sentimentos como simbióticos. É usado o mesmo molde, deriva do mesmo protótipo (que já faliu) sendo aplicado indiscriminadamente. Como tal, não tendo empenho para a construção de um novo projecto, cola com cuspo este sentimento, utilizável de pessoa em pessoa, até à falência do modelo implementado ou ao desgaste e rotura dos materiais utilizados.





RECICLAR – este é o mais complexo dos quatro passos. Para se reciclar sentimentos, é preciso separá-los primeiro:




Sentimentos de papel e cartão para um lado – são sentimentos solúveis, mas os mais comuns e mais práticos.




Para outro compartimento vão os sentimentos plásticos e enlatados que demoram anos a desintegrar-se ou decompor-se. Estes são mais resistentes mas podem ser tóxicos exactamente pelos seus componentes.




Os sentimentos de vidro são imutáveis. Estão formatados, cristalizados, têm muita saída pela fiabilidade e durabilidade e são, nalguns casos, mandatórios – segundo a ASAE.













Para se reciclar os sentimentos tem de, primeiro, separá-los e, depois, transformá-los. Para se reciclarem sentimentos pega-se naqueles afectos combalidos que temos guardados há anos em caixas velhas de sapatos novos.




Como ficamos sempre com a sensação de que poderemos vir a precisar dessas paixões num futuro próximo não nos desfazemos delas. (Big mistake!)




Os sentimentos antigos, empoeirados, fora de uso, aqueles que guardámos e de que já nem nos lembramos, somados aos sentimentos (porventura recentes), que são perniciosos ou simplesmente sabem mal, dão uma óptima matéria-prima.





Junta-se tudo muito juntinho. Pica-se tudo muito picadinho. Aquece-se tudo muito aquecidinho. Esquece-se tudo muito esquecidinho.




Por meio de exercícios vários de relativização e reactivação cerebral engendra-se uma nova forma (leia-se [fôrma]) para acomodar estes sentimentos estranhos, distantes ou confusos. Há que deixar macerar e depois descansar para que levede.




E quando terminado o compósito e idealizadas as formas finais (aqui sim, [fórmas]) a dar ao lote de sentimentos, podemos até nem ficar com ele.




Podemos simplesmente dar-lhe forma e, reconhecendo um ou outro retalho que em tempos nos foi querido, oferecê-lo a conhecidos, a desconhecidos, como retribuição ou primeira aproximação.




Ou podemos soprá-los ao vento, sem destino.




Os bons sentimentos feitos de fragmentos antigos têm novas feições, novas utilidades, farão novas pessoas mais felizes e mais ricas.







E se eu te der um pouco dos meus sentimentos reciclados e receber um pouco dos teus, podemos criar uma instalação digna do Guggenheim Bilbao.









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1) Isto não sou eu a mugir, sou eu a conjugar o verbo moer na 1ª pessoa do singular, presente do indicativo…

7 comentários:

afectado disse...

Foda-se, tu escreves mesmo bem!


PS: desculpa o palavrão, mas teve que ser, é a palavra que dá mais força ao que queria dizer :)

de Marte disse...

se escreveres "fooooooooooooooooodaaaaaaaaaa-ssssssssssse" ainda fica melhor, pq sai com ganas!!

Eheheh. Obrigada... sei lá o que dizer!
(mega sorriso de "obrigada"!) :D

kisses
M

afectado disse...

e quem te diz que não saiu com ganas? ;)

de Marte disse...

sim, acredito que tenha saido. era só eu armada em chica-esperta...

:)

Maldonado disse...

Fiquei abismaravilhado com este texto... Tu escreves muito bem e a tua criatividade não tem limites! :-O
Só mesmo tu para te servires de conceitos ecológicos e adaptá-los ao teu contexto afectivo... ;)

de Marte disse...

Maldonado,
realmente as metáforas acompanham-me a toda a hora.

E obrigada pelo elogio.

Gosto de escrever, só isso. Às vezes lá calha uma coisa ou outra gira.
O engraçado é ver como há textos que me parecem "melhores" e têm pouca saída. Já outros, mais "banais", umas coisas meio maradas que me passam pela cabeça e não têm exactamente uma estrutura ou uma finalidade recebem o aplauso da crítica.
("A crítica" são, neste caso, o Sr. Dr. Engº Maldonado e o PhD Afectado).

Obrigada a todos.

(Queria agradecer aos meus pais e à minha família por ter lá estado sempre para mim. Aos meus amigos... snif, snif... obrigada ao Bernardo... que é o meu São Bernardo. Queria agradecer aos membros da Academia e, principalmente aos chatos, aos pain in the ass que me chateiam todos os dias e me fornecem matéria-prima furiosa, marada e cómica para poder postar aqui. Um bem-haja muito grande.)

Kisses from Mars

afectado disse...

ahaha PhD...